02/01/2021
Rememorando os rituais de Ano Novo
A Rió escreveu sobre o
Natal deste ano, muito diferente dos anos anteriores.
E eu hoje vou rememorar
os dias de Ano Novo da nossa infância.
Quando penso no “oshoogatsu”
(Ano Novo), a primeira coisa que me vem à cabeça é o vestido novo. Esse era o presente mais
marcante do 1º dia de cada ano (e acho que era o único), mas passar o dia
inteiro com um vestido novo em folha, estando em casa mesmo, dava uma sensação
de festividade, alegria e um orgulho desmedido, que jamais esqueço.
Era a nossa mãe que
costurava as roupas novas para toda a família e isso com certeza representava
trabalho para vários meses, talvez um ano inteiro, visto que ela costurava nos
poucos momentos em que todos os outros afazeres da casa (cozinhar, lavar louças
e roupas, limpar a casa, plantar e colher legumes ao redor de casa, etc...)
permitiam.
E também a mãe era
muito meticulosa em todas as etapas da produção : escolher o modelo de cada
peça, folheando os parcos exemplares de revistas japonesas (e nesta etapa as
crianças maiores eram consultadas sobre suas preferências), traçar os moldes em
papel de embrulho ou jornal velho, recortar o tecido, costurar à mão as peças
recortadas, fazer a prova das mangas, da cintura, do cumprimento da saia, costurar
tudo à máquina, fazer a prova da peça inteira, refazer o que não ficou a
contento, fazer à mão as barras (da saia, das mangas ou punhos), pregar botões ou
colchetes, e eventualmente algum adorno extra. Ela dizia que era muito lerda,
que levava o dobro do tempo de outras pessoas para concluir uma peça.
Tenho memória das horas
passadas na sala da casa debaixo da figueira, eu e minhas irmãs, desenhando com
tocos de madeira , no chão de terra batida, figuras que iam desde princesas e
bruxas das nossas imaginações, animais, flores, casas simples ou suntuosas,
modelos de vestidos dos nossos sonhos... e minha mãe sempre presente,
costurando alguma coisa, e quase sempre cantando. Imagino agora que ela ia
confeccionando as roupas da família inteira, guardava-as fora do nosso alcance,
e no dia do Ano Novo presenteava cada um de nós com a roupa nova que chamávamos
de “ityorai”, com a qual podíamos passar o dia. Já no restante do ano, essa
roupa se usava somente em ocasiões especiais, para ir à cidade ou visitar
alguém. Para ficar em casa as roupas
usadas eram velhas e surradas, passadas dos mais velhos para os mais novos, que
chamávamos de “fudangui”.
Outra coisa que me vem
à lembrança é o ritual do “moti-tsuki” que ocorria nos últimos dias de cada ano,
prenunciando a chegada do novo ano.
Em algum dia da ultima
semana de dezembro, nossos pais puxavam
de algum canto da casa os apetrechos para fazer o moti : um pilão enorme de madeira (ussu), que era um
pedaço de tronco de árvore (de cerca de 60 cm de diâmetro e um metro de altura),
cavado no centro em forma de tigela redonda (de cerca de 20 cm de profundidade),
e também um enorme socador de madeira (kine), um toco grosso com um cabo de madeira enfiado perpendicularmente em uma
das extremidades, ambas as peças feitas por ele mesmo.
A mãe então tirava o pó
dessas peças (guardadas o ano inteiro), enchia o ussu com água quente até a
borda e deixava a ponta do kine de molho nessa água. E essa água quente era
trocada todos os dias, até o dia do moti-tsuki.
Nesse dia, a mãe
cozinhava no vapor uma grande quantidade de arroz de moti (3kg? 4kg?) numa panela especial composta de tres peças : uma
caçarola enorme com duas asas, uma outra da mesma dimensão, com o fundo todo
perfurado, e uma tampa, todas de alumínio. Na caçarola ia a água, em cima a
peça perfurada, forrada com um saco de algodão recebia o arroz de moti (que
ficou de molho na água desde a véspera) , e por cima a tampa. O conjunto ia para
o fogão a lenha e o arroz era cozido no vapor.
O pilão então, já
limpo, recebia o montão de arroz cozido. Só então o pai aparecia e começava o
ritual do motitsuki : ele brandia o socador bem alto e baixava no centro do
monte de arroz, e a mãe com uma pazinha de madeira empurrava uma porção de arroz da beira para o centro, no
exíguo intervalo de tempo em que o socador ia para o alto e voltava com toda a
força em cima do arroz. Tinha que ter uma sincronização perfeita entre os
movimentos do pai e da mãe, senão havia o risco de o socador cair sobre a
cabeça ou a mão da mãe. Agora até me arrepio pensando nesse risco, mas em
criança eu, como todos os irmãos, assistíamos a essa arte de fazer moti, com certo
encantamento, rodeando os dois a uma distância segura.
De vez em quando, os
dois paravam para verificar o estado do arroz, e a mãe virava todo o volume de
arroz dentro do pilão, para depois recomeçar o ritual de soca-vira o arroz, até
ficarem satisfeitos com o resultado : uma massa totalmente homogênea, sem grãos
inteiros ou pelotas no meio.
Aí então a massa
inteira era transferida para uma mesa polvilhada com maisena, e ainda quente,
um dos dois ia separando porções
pequenas da massa que o outro enrolava nas palmas das mãos em formato
arredondado e achatado (como hambúrguer). E era usual a mãe já ter feito doce de feijão
no dia anterior, para rechear uma parte dos motis, e esses motis doces eram
distribuídos entre as crianças para serem consumidos ainda quentes. Para uma
época em que raramente havia doces em casa, esse moti para mim era um manjar
dos deuses.
Mas antes de qualquer
um começar a comer, a mãe separava um ou dois motis (não me lembro bem) num
prato e oferecia aos deuses e antepassados no altar de um oratório que faz
parte da mobília de nossas casas, desde o casamento dos pais.
E no 1º dia do ano, a
tradição na nossa casa era comer moti logo de manhã, aquecido na brasa em cima
de uma chapa, e molhado numa mistura de shoyu com açúcar. E no 1º almoço do ano
era invariavelmente servido o “zooni”, moti aquecido dentro de uma sopa de shoyu com
algas e alguns legumes
Nosso pai adorava moti,
por isso, nos primeiros dias de janeiro, ele o consumia diariamente, de várias
formas, até que, ao acabar o estoque, dizia : “Agora acabou oshoogatsu”. E
todos os anos contava orgulhosamente, que no Japão, todo dia de Ano Novo ele
comia, numa só refeição, tantos motis quantos eram os anos da sua vida. Mas esse desafio findou aos 11 anos, quando
ele imigrou para o Brasil, e depois disso, não tenho idéia de quantos anos se
passaram até que a família tivesse condições de restabelecer o ritual do
moti-tsuki.
Esse ritual foi
praticado por nossos pais até ... quando? O pilão e o socador foram levados para
a casa da cidade de Lavínia quando para lá mudamos em 1957? Não tenho
lembranças de moti-tsuki na cidade. Mas
também não consigo imaginar os dois comprando moti feito por outras pessoas, já
que não havia loja em Lavínia que vendesse produtos japoneses.
Quem dos irmãos poderia
reavivar a memória desta época para responder a essa minha dúvida? E complementar a minha história ?
Muito boa essas l lembranças do Oshoogatsu. Vestido novo e motitsuki. Gostei. Tonco
ResponderExcluirFiquei emocionada com a sua narrativa que sempre vivenciamos juntas mas eu não seria capaz de contar com todos esses detalhes. Só faltou falar que o ritual de amassar o moti no pilão era acompanhado por "petan potan"que é o som ritmado intercalado por "dokoisho"do pai quando ele descia o socador bem em cima do moti...Saudade do pai que se foi e da mãe que não canta mais... Rió
ExcluirComo o pai gostava de moti!
ResponderExcluirFalando do gosto dele, não dá para esquecer que ele gostava muito também de camarão, que comia visivelmente com apreço.
Dizem que do lado de lá, não tem comidas como as daqui. Se ele tiver tempo para pensar nisso, deverá ser uma das maiores recordações da vida dele aqui.