103 anos não chegaram ( em vida)

 Sempre quando chegava o niver do pai eu lembrava que ele dizia que tinha nascido no dia quando o dia e a noite tinham o mesmo tamanho e falava como se isso fosse mérito dele! Só pelo jeito dele falar nesse solstício com orgulho sempre via nele algo de especial, alguém que foi abençoado com sorte, algo assim.

Vai ver que é por isso que o pai tinha tanta auto confiança, se sentia especialmente sortudo na vida e parece que só armazenou lembranças boas na memória. Quando eu soube sobre a Mariana após 14 anos que tinha vindo ao mundo, fui lá falar com os pais, me sentindo traída, uma coitada raivosa...acabei de desabafar e aí o pai só olhou pra mim e disse " shikataga nai...". Saí de lá meio frustrada entendendo que ele tinha me aconselhado a ser conformista na vida. Demorei e tive de envelhecer mais pra entender o significado dessa fala : que temos de aceitar a vida como ela é , que não temos o poder de controlá-la conforme a gente quer, que temos de aprender a balançar ao vento como o bambu que não verga os galhos  (essa imagem ele me falou em outro momento). O pai tinha esse tipo de entendimento sobre a vida e por isso conseguiu partir daquele jeito com suavidade, sem protestar talvez balbuciando o " shikataganai"...

Rió com saudade eterna


 

Comentários

  1. Eu mesma pra comentar a foto tirada na exposição que fiz em 2005 e ele falou que o melhor quadro era o que tá na imagem, um quadro onde expressei a angústia que vivia naquele momento, me sentido acuada e " depenada"...acho que ele entendeu...
    Rio

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  2. Aaaiii... Rió, que texto emocionante ! Chorei até...
    Eu imagino que esse "Shikata ga nai" do pai não era expressão de derrotismo nem de conformismo. Era uma maneira de olhar o mundo e visualizar os momentos em que não adianta lutar e desperdiçar energia, mas sim simplesmente de deixar o tempo passar. E muitas situações na vida acabam se resolvendo por si só, com o passar dos tempos.
    Mas esse tipo de filosofia não é para jovens, precisamos é viver e sofrer muito para aos poucos entender qual o momento de lutar, e quando devemos nos curvar ao vento, sem deixar que nos arranquem as raízes. Acho que o pai poeta entendia bem disso.

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