Saudades da Mãe.
05/07/2021. Cinco meses que a nossa Mãe se foi.
Estou particularmente
sensível hoje, desde que acordei, fiquei
pensando no que deveria registrar para marcar essa data.
Queria uma lembrança
alegre, mas não consigo parar de pensar num dia que passei na casa da
Vila, e ela me disse que iria à padaria
(aquela saudosa Padaria Sagres que ficava na esquina da Rua Loefgren com a R. Domingos de Morais).
Eu logo me ofereci para
ir à padaria, pois nessa época a Mãe já tinha muita dificuldade para andar, por
causa de dores nos joelhos. Mas ela disse com determinação : “Eu quero ir até a
padaria”. Pegou uma carteirinha que usava para carregar o dinheirinho das compras,
e calçou os sapatos e pegou a sua bengalinha.
Eu não tive o que fazer
senão acompanha-la. E aaaiii...que sacrifício! Como foi grande o sofrimento da
Mãe para andar aqueles poucos metros até a padaria!
Chegando à padaria,
comprou umas poucas coisas além de pãezinhos, foi até o caixa para pagar, mas
ao começar a voltar para casa... meu
Deus! ela começou a arfar e a curvar cada vez mais para a frente, agarrada na
sua bengala, que eu mal conseguia segurá-la para não cair de uma vez ao chão!
Quando finalmente
entramos na casa, ela literalmente desabou no sofá e disse : “Yare yare, moo
padaria nimo ikaren yoo ni na-ta”. Eu choro hoje pensando no que a Mãe sentiu
naquele momento, ao reconhecer que nunca
mais poderia andar por conta própria, para ir a qualquer lugar, nem mesmo à padaria!
E daquele dia em
diante, realmente deixou de ir às suas
pequenas comprinhas, na Casa de Doces Santa Cruz, no Kan-sai (loja de artigos
orientais), no Shopping Santa Cruz, que ela chamava orgulhosamente de “Uti no
shoppin”.
Isso deve ter
acontecido em 2013, porque no início de 2014, a Mãe se tornou
definitivamente cadeirante. E passou 7
longos anos dependente dos cuidados alheios, ela que era tão independente,
determinada e batalhadora incansável!
Mãe, espero que você esteja
hoje num mundo melhor, sem amarras, sem dor, com autonomia, e cantando as suas canções favoritas, em paz...
Talvez a mãe tenha conseguido permissão para ir ficar perto do pai.
ResponderExcluirMas quando penso nela, imagino que fica olhando além do pai, para todos nós, querendo de alguma forma continuar a cuidar de nós.
É mesmo, a mãe sempre foi aquela que queria proteger todos os filhos, embora fizesse questão de respeitar a nossa autonomia e liberdade de escolha.
ExcluirOi, Yu, o que vc relatou é meio triste mas nos faz pensar que essa cena significa que ela viveu uma vida longa e que nós temos de aprender a aceitar os limites do corpo, o envelhecer mesmo. Coisa nada fácil é verdade mas assim mesmo o ser humano em geral quer viver , né?
ResponderExcluirÉ verdade. E quero acreditar que no final de contas ela teve uma vida bem vivida.
ExcluirPUXA... impressionante, porque acho que v nunca comentou isso antes, nem comigo, né? - Mas, acho perfeitamente compreensível que v tenha "guardado" essa história, tão triste... e nós já poderemos começar logo logo a sofrer esse tipo de restrições, né? - por ex, quem dirige ter que parar, até pra maior tranquilidade da família... (sem apontar o dedo pra ninguém, he he).
ResponderExcluirVejam, a mãe só parou de andar por absoluta impossibilidade... e quem consegue convencer alguém a parar de dirigir, que precisaria suportar a perda de um pouco mais da sua autonomia, tendo o carro, a chave, o seguro, mesmo enxergando mal, pernas dormentes, reflexos demorados e etc etc?
- Essa história me lembrou o pai, que saía sozinho pros seus vários encontros de haikai, gozando do respeito dos parceiros... até que se perdeu no centro de Sampa, e a polícia o trouxe de volta; depois, a Tonco, o Zé ou eu levávamos e trazíamos, mas ele teve que cortar sua participação em vários grupos mais distantes... até que PRECISOU parar, acho que quando finalmente deve ter reconhecido (tristemente...) que não podia mais escrever, ou principalmente comentar e ajudar os/as demais. E aí, deve ter sido um período TERRÍVEL pra ele, até que sossegou de vez, por puro "esquecimento" (??) de suas habilidades passadas, e pelo respeito e merecido reconhecimento dos seus pares... e nos últimos tempos, deixou até de ler seus jornais, que serviam mais de travesseiro ou cobertor.
... e quanto a nós, acho que precisaremos encarar com humor e um tanto de resignação esse inevitável declínio de capacidades - sem nos rendermos à depressão, tentando manter com unhas e dentes a nossa "vontade de viver, de conviver, de continuarmos a batalha pelas mudanças que pudermos contribuir pra promover, grandes ou miudinhas... enfim, fortalecendo as nossas teias de apoios e auxílios, né? dentro e fora da família...