DEZ MESES SEM A MÃE.
Hoje , 10º mês de partida da mãe, Tonco, Zé e eu acendemos incenso no oratório
e eu ofereci uma porção zinha de somem e tofu para os pais.
Pensando muito na mãe,
lembrei de uma expressão que ela usava muito, apesar de sempre se professar
atéia : “Bati da ataru” que equivale a “Deus castiga”.
Toda vez que acontecia
algo de muito bom, principalmente quando se sentava à mesa farta, com comidas
boas e caras, ela dizia : “ Bati ga ataru ka ne”.
Apesar de ter levado
uma vida tão sacrificada desde a mocidade, trabalhando duro na roça, e depois
ter criado seis filhos que nasceram praticamente um a cada ano, o que deve
ter-lhe imposto muitas renúncias e sacrifícios, parece que ela não se sentia
merecedora de muitos prazeres nem conforto na vida cotidiana.
Lembro muito de um dia
que passei para dar um alô aos pais na casa da Vila, no período da manhã, no
meio da semana, a mãe estava preparando um lagostim que acabava de trazer da
feira, e quando me viu, fez uma expressão de culpa de criança que fora flagrada
fazendo arte, e me disse : “ Kon na zeitaku o shiteru” (Olha que luxo!). E eu
tive que falar : “Que é isso? Voces já trabalharam tanto na vida, ninguém vai
condená-los por um luxo tão modesto!”.
Engraçado esse conceito de castigo divino que a mãe cultivou. Parece que ela não se permitia ser totalmente
feliz, porque não se achava merecedora, e nisso se contrastava totalmente com o
pai que vivia satisfeito consigo e com a vida, sendo até prepotente em muitos
momentos.
Saudades de vocês dois.
Yu, você descreveu muito bem o perfil da mãe e do pai, a mãe sempre carregando culpas ( será que ancestral?) e o pai leve e solto...a natureza deles era bem diferente mesmo ! Lembrar deles assim parece que faz a gente sentir perto deles...
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