Um  pai que nunca ficou doente


Hoje, 03/01/2022, completou 14 meses de partida do Pai.

Fiquei o dia todo olhando para o retrato dele pintado pelo Mabe que está bem à minha vista enquanto trabalho no meu computador.

Um sentimento entre melancolia e saudade me perseguiu o dia todo.

Lembrei daquela vez em que o pai foi submetido a RTU (Ressecção Transuretral) de próstata,  há muitos anos atrás.

Nem sei dizer o ano, mas deve ter sido na década de 70, os pais vieram de Lavínia para São Paulo, para o pai se submeter a essa cirurgia, devido ao aumento da próstata que prejudicava a micção.

Como eles não tinham qualquee  espécie de seguro saúde, acredito que pagaram pela cirurgia, e não sei com arranjo de quem, o pai foi internado num  pequeno hospital privado da Zona Sul, cujo nome também não recordo.

A questão é que eu e Nonco fomos visita-lo e ficamos abismadas com a precariedade das instalações. Enfermaria com piso rústico, paredes nuas, apenas com duas camas, uma cadeira, um banheiro pobre... Enfim, a  melhor definição para o hospital seria “uma espelunca”. No entanto, os pais estavam ali, bem acomodados,  sem nenhuma queixa, conversando sobre tudo, como se estivessem em sua própria casa.

Ao sair do hospital, o comentário nosso foi : o que é a simplicidade! Por não conhecerem outros hospitais, aquele para eles era normal, e nem sentiam falta de nada!

Depois disso,  o pai teve experiências de  internação nos hospitais do interior : uma vez para cirurgia emergencial de apendicite supurada, outra vez para tratamento de herpes zoster de grande extensão. E em 2014, foi internado no Hospital das Clínicas para correção da fratura de fêmur.

Nessa última ocasião,  teve uma evolução no pós-cirúrgico que impressionou a todos . Com 96 anos, 5 dias depois da cirurgia em que ganhou uma prótese, o pai ficou em pé ao lado da cama, para mostrar ao cirurgião que estava bem, poderia ir para casa. Chegando em casa, fez algumas seções de fisioterapia, durante apenas um mês, depois já voltou a andar, com o auxílio de um andador e dispensou a fisioterapeuta.

Mas após os 100 anos de vida, o mote dele era : “Eu nunca fiquei doente, nunca na minha vida fui internado num hospital!” E afirmava isso com toda convicção!

Feliz dele que nunca se lembrava dos momentos ruins da vida, e sempre tinha um motivo para festejar com alegria os pequenos acontecimentos do dia a dia, até o fim!  

Saudades  daquele velhinho...

Comentários

  1. Eh, Yuko, só vc pra lembrar dessas coisas do pai. De tanto ele insistir que nunca ficou doente, acho que apaguei da memória esses fatos...o pai sempre teve uma auto imagem super positiva : gabava por ser mestre de haiku, de ganhar sempre nos jogos de pingue pongue ( não importando o jeito deselegante de jogar...), de ter o mesmo peso a vida inteira ( será ? ), de nunca ter adoecido (!!),etc.
    Agora ele deve estar se gabando de ter partido daquela maneira simples,sem alarde. E deixou saudades em nós !
    Rio'

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