Uma flor que preferia ficar à sombra.
Hoje faz 11 meses da partida da mãe.
A Tonco veio e nós duas
acendemos incensos para a mãe, 3 pares cada uma, para representar os 6 filhos
que ela deixou.
E nesta semana a
Cecília comprou um pequeno vaso com um único girassol e colocou em frente ao
oratório, dizendo que o pai gostava muito dessa flor. Que quando ela chegava
com o vaso de girassol, invariavelmente dizia : “Oh! que bonito heim?”
Na verdade ele apreciava qualquer flor, fazia
questão de sempre ter pelo menos dois vasos de flores ao lado da escada, no
ângulo em que ele podia apreciá-las, deitado no sofá dele. E a mãe, mesmo tendo deixado de falar nos
últimos 4 anos de sua vida, sempre demonstrou vivo interesse pelas flores que visualizava, sentada na sua cadeira de rodas,
perto do sofá do pai.
Por isso, nos últimos anos, desde que a mãe se
tornou cadeirante (em 2014), perdendo a capacidade de cuidar das flores do quintal,
passei a comprar semanal ou quinzenalmente, pelo menos um vaso de flores
variadas para enfeitar aquele cantinho da sala deles.
Tenho muitas lembranças da mãe cuidando de flores que ela
cultivou, em todas as casas que morou ao longo da vida.
Uma vez, naquela casa de tijolo do sítio Bicudo, eu
estava junto dela vendo-a regar as plantas, mexer nos vasos de flores, eliminar
ervas daninhas, etc.. e num dado momento, talvez para incentivar o meu gosto
pelas plantas, a mãe disse : “Vou dar esse vaso de presente para você”. Era um
pequeno vaso com flores de begônia, mescladas de vermelho e branco.. Aí eu peguei
aquele vaso nas minhas mãos e fiquei sem saber o que fazer. Perguntei : “E onde
vou guardar isso?”. A mãe riu e disse : “Deixa o vaso onde estava. Para onde
quer levar? Aí eu pensei : “Não entendi, se não posso guardar comigo, por quê
esse vaso seria meu?” Devia ter uns 6 anos? Olha que idéia de posse! Kkkk...
A mãe gostava de todas
as flores, mas sobretudo de flores vermelhas. Uma vez, olhando para o imenso quintal
da ultima casa que morou em Lavínia, quase todo coberto de flores,
a maioria vermelha (primavera, hibisco, begonia, dália, rosa, crisântemo, e
outras que não lembro mais), disse : “Nossa! Que vermelhidão! Gosto de flores
vermelhas, mas do jeito que está, até me assusta!”
O nome artístico que
ela usava como poetisa era “KAEI” que se escrevia com dois ideogramas : KA (flor)
e EI (sombra). Não poderia escolher um nome mais apropriado!
Ela tinha a delicadeza
e a beleza interior de uma flor, mas sempre foi modesta e discreta, não gostava
de se sobressair, era como se sempre preferisse ficar à sombra de uma flor do
que ser a flor em si. Saudades dela...
Beleza de texto, Yu ! Ela era mesmo a sombra da flor mas sendo de flor bem vermelha a sombra era muito forte ! Salve a mãe!
ResponderExcluirRio'
Puxa, puxa! - eu sempre soube que a mãe gostava de mexer com flores, mas acho que nunca conversei com ela sobre isso! Acho que aquela última casa que eles ocuparam em Lavínia, que tinha um quintal enorme, foi o ápice na quantidade de flores, incluindo as orquídeas, né? Nessa altura da vida, fico pensando que fui muito poucas vezes visitá-los naquela casa, e ficava poucos dias... me entristeço ao perceber isso, e também as tantas coisas que deixei de lado, em nome das velhas camisas-de-força como o trabalho ou os vários compromissos... e a amarga sensação do baixíssimo rendimento de todo esse tempo dedicado às "várias causas"...
ResponderExcluirEnfim, manas, é muito bom ler estas suas lembranças! Eu é que vou continuar devendo a vs algum registro interessante!